Machado de Assis cujo estilo é considerado austero e pudico, um dia jogou esta frase no papel: casamento, esta prostituição doméstica. Opa! Olha aí o gênio de um homem conservador, levantando uma tese revolucionária. A de que a prostituição é, antes de tudo, uma relação de poder.
Antes de prosseguir, consultemos o Houaiss:
prostituição – Atividade institucionalizada que visa ganhar dinheiro com a cobrança por atos sexuais. Exploração de prostitutas.
proxeneta – aquele que explora a prostituição de outrem.
Se levarmos ao pé da letra estes dois verbetes, como poderíamos, por exemplo, definir gente famosa que se expõe em fotos ou em filmes com o objetivo absolutamente indiscutível de provocar desejo sexual em outrem? Não se precipite amigo leitor. Retire a palavra prostituta(o) de sua boca. A famosa(o) só poderá ser assim denominada(o) se cobrar um dinheirinho (ou dinheirão) para posar para tais fotos ou interpretar tais filmes. O mesmo se poderá dizer com relação aos vetustos órgãos de nossa mídia que produzem e veiculam tais fotos e tais filmes: eles atuam como proxenetas.
É mais do que óbvio, portanto, que os dois verbetes mencionados acima não podem ser tomados ao pé da letra. Seria um Deus nos acuda. Ia sobrar pra todo mundo, Vige Santíssima! O que fazer então? Arrancar a página do dicionário? Não é preciso chegar a tanto, basta relativizar.
Esta é a palavra mágica. Tudo é relativo. Portanto, tudo pode eventualmente ser tolerável ou suportável. Se, no final, ainda metermos alguma grana no bolso, melhor ainda.
Agora voltemos ao velho Machado. Ele nos ensina que a prostituição é uma relação de poder. Como a prostituição já foi devidamente relativizada, sobra a noção elementar de que o sexo implica, inevitavelmente, uma relação de poder. Opa! Mas como se dão as relações de poder? Historicamente, através da luta de classes.
Isso tudo para dizer que a menos que se queira ser apenas um proxeneta e escrever livros ou matérias do tipo “Tudo o que você precisa saber sobre sexo”, com o objetivo exclusivo de levantar uma grana, é preciso estudar , minimamente, as relações de classe ao longo da História. Muita gente já fez isto de forma mais ou menos competente. No caso específico da exploração sexual selecionei quatro autores: Marx, Freud, Jung e Reich. Eles dissecam as relações entre o poder e o sexo na sociedade. E todos eles fixam-se na questão crucial: as relações de sexo e poder no interior do núcleo familiar.
Por Francisco Barreira

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